Características dos CFD´s

Produtos financeiros complexos:

 

CFD - Contract For Difference ou Contrato Por Diferença, é um instrumento financeiro derivado alavancado, cujo activo subjacente pode ser divisas, matérias-primas, acções e índices. O efeito da alavancagem financeira permite obter um rendimento superior perante variações inferiores no preço ou empate de capital inferior, face aos activos sem esta característica. Da mesma maneira, o efeito contrário também fica amplificado.

Os CFDs são produtos financeiros complexos. Atendendo ao facto de serem produtos alavancados, o nível de risco associado aos CFDs é elevado existindo a possibilidade de perda do capital inicialmente investido ou superior caso se use demasiada alavancagem. Os CFDs estão sujeitos a riscos gerais de mercado e do activo subjacente, tais como, o risco de preço, o risco de taxas de juro, o risco de taxas de câmbio, o risco do emitente, risco político, risco subjacente, entre outros. Dados as suas características e riscos associados, os CFDs deverão ser utilizados por investidores experientes.

As transacções com contractos CFD permitem comprar ou vender um determinado volume de divisas, matérias-primas ou acções sem ser necessário dispor de meios que cubram o valor total do contrato – é suficiente dispor de uma garantia denominada como depósito (margem), que garanta o ajuste da transacção caso se verifique uma variação desfavorável nas cotações dos activos. Os valores base das margens são os seguintes: 1% para os contractos sobre divisas, de 2% e 3% para os CFD sobre índices accionistas e matérias-primas e de 7% a 15 % para os contractos sobre acções.

Os contractos CFD encontram-se altamente uniformizados e a sua compra e venda estão sujeitas a regulamentações específicas. A unidade de transacção para os CFD é o contrato, no caso das divisas é conhecido por LOTE, equivalente à venda ou à compra de 100.000 unidades de uma divisa por outra. No caso dos CFDs sobre matérias-primas, acções e índices, o volume do contrato depende das especificidades definidas para cada contrato.

Podem realizar-se transacções por um valor superior ou inferior a um LOTE, comprando ou vendendo o seu múltiplo. Por exemplo, para comprar 150 mil euros por dólares, é preciso realizar uma transacção de compra de um LOTE e meio de EUR/USD. É possível também investir por exemplo 0,1 ou 0,5 LOTES. Isso permite um investimento mínimo no valor de 100 euros - valor da margem para 0,1 LOTES de um contrato EUR/USD - que possibilita o acesso ao mercado a partir de volumes reduzidos.

As transacções sobre CFD permitem uma alavancagem financeira elevada, e possibilitam também a execução de transacções até 100 vezes superiores ao valor do capital na conta do investidor. Para comprar os 150 mil euros do exemplo anterior, é suficiente ter na conta de investimento um montante de 1.500 euros.

A compra de 1,5 LOTES equivalente a 150 mil euros não significa que possua efectivamente esse montante e que possa levantá-lo da sua conta de investimento. A liquidação dos contractos por diferença de taxa de câmbio é efectuada unicamente através da comparação entre as taxas de câmbio da abertura e as do fecho de uma determinada posição.

A aquisição de 1,5 LOTES implica que o ganho ou a perda obtidos devido às variações da taxa de câmbio serão apurados, não sobre a base do valor de 1.500 euros, mas sim sobre o valor de 150 mil euros. O resultado de uma alavancagem financeira tão elevada, no caso de um aumento (diminuição) da taxa de câmbio EUR/USD, é que o ganho (perda) será cem vezes superior ao de uma transacção real de compra de 1.500 euros.

 

Exemplos de Investimento CFD

Exemplo CFD 1

Vamos supor que nos encontramos muito perto de conhecer uma decisão incerta sobre as taxas de juro por parte da Reserva Federal Americana, a qual vai ser anunciada numa determinada sessão. Na opinião do investidor, verificar-se-á uma descida de 50 pontos base, em vez dos 25 que espera o consenso de mercado. Esta injecção de liquidez por parte da FED poderia favorecer uma desvalorização do USD face ao euro e, portanto, uma subida do euro face à divisa americana.

O investidor poderia posicionar-se do lado longo no euro no mercado EUR/USD, comprando um lote equivalente a 100 000 unidades (EUR) ao preço de 1.5094.

Como resultado, teria aberto uma posição longa equivalente a 100 000 euros comprados ao preço de 1.5094 dólares por cada euro, pela qual se reterá uma margem inicial de 1 lote x 100 000 unidades (de EUR) x 1% = 1.000 euros.

Primeiro dia

A decisão das taxas impulsiona o euro no seu cruzamento com o dólar, atingindo os 1.5144.

O ganho, caso fechássemos a posição, seria de: (1.5144 – 1.5094) x 100 000 = 500 USD

De acordo com o câmbio em vigor de 1.5144, os ganhos em euros seriam de: 500/1.5144= 330,16 EUR

Apesar dos ganhos, o investidor pensa que ainda tem margem para aproximar-se dos máximos das sessões anteriores, pelo que decide manter a posição aberta.

Esta posição é renegociada de forma automática, substituindo-se por uma idêntica de 100 000 EUR comprados a 1,5094.

Na nossa conta acresce uma quota de pontos SWAP por um dia. De acordo com os dados da tabela de pontos swap obtemos: 0.032 x 10 USD/1,5144 EUR/USD (valor do PIP) = 0,21 EUR

Dessa forma, o resultado final da operação seria: 330,16 EUR + 0,21 EUR = 330,37 EUR

Segundo dia

Hoje, ao contrário das previsões, verifica-se uma queda do Euro vs Dólar, retrocedendo até aos 1.5114.

Isto reduz o lucro potencial em relação ao dia anterior, mantendo-nos ainda em positivo:

(1,5114 – 1,5094) (EUR/USD) x 100 000 EUR = 0,0020 (EUR/USD) *100 000 EUR = 200 USD

De acordo com o câmbio em vigor nesse momento, os lucros em euros seriam de:

200 USD/1.5114 (EUR/USD) = 132,33 EUR

Por sua vez, como decidimos manter a posição mais um dia, acrescem outros 0,21 EUR pela quota de pontos SWAP por um dia.

Dessa forma, o resultado final da operação seria: 132,33 EUR + 2*0,21 EUR = 132,75 EUR

Terceiro dia

Um dado macroeconómico desfavorável na zona euro faz descer o euro face ao dólar até aos 1,5070, momento em que o investidor decide encerrar a posição.

A perda resultante é de:

(1,5094 – 1,5070) (EUR/USD) x 100 000 EUR = 0,0024 EUR/USD *100 000 EUR = -240 USD

De acordo com o câmbio em vigor no momento do fecho da posição, o ganho em euros seria de:

-240 USD/1,5070 EUR/USD = -159,26 EUR

Tendo em conta que o investidor cobrou valores por pontos SWAP por manter a posição aberta duas noites, a sua perda final será:

-159,26 EUR + 2*0.21 EUR = -158,84 EUR

Exemplo CFD 2

Ultimamente os investidores estão bastante atentos aos preços das matérias-primas, já que em função dos dados macroeconómicos negativos, as matérias-primas são normalmente activos de refúgio para determinados investidores. Dessa forma, o investidor acredita que o preço das matérias-primas vai oferecer oportunidades de investimento. Além disso, pôde observar que o nível dos preços do petróleo atingiu máximos históricos e, na sua opinião, o preço desta matéria-prima será corrigido quando se publiquem dados menos optimistas. Esta tarde vai reunir a OPEP para decidir se aumenta ou reduz a produção de petróleo e o investidor acredita que aumentará a sua produção, o que provocará a consequente descida do preço.

Primeiro dia

Tendo em conta a situação, decide vender 1 lote de OIL a 98.04 por uma exposição nominal de 196 080 dólares (cada lote corresponde a 2000 barris, pelo que o multiplicador de 2000 USD da Tabela Específica x nível de preço de OIL equivale ao valor da exposição total).

O dia avança e às quatro da tarde a OPEP anuncia em conferência de imprensa que vai aumentar a produção de barris de petróleo. Após o anúncio deste dado, o preço do petróleo desce até atingir um nível de 96.34 dólares. No caso de encerrar esta posição no final do dia, o cálculo será o seguinte:

2000 USD x (98.04-96.34) = 3400 USD

No final do dia a cotação do par EUR/USD foi de 1,5200:

3400 USD/1,5200 EUR/USD = 2236,84 EUR

Apesar de estar satisfeito com o lucro potencial obtido, o investidor decide manter a posição aberta até ao dia seguinte. Sendo uma posição curta, reembolsam o preço da nossa posição. Este reembolso surge a partir da tabela de pontos swap que se estabelece para cada semana. Neste caso concreto, os pontos swaps aplicáveis ao preço pela negociação de OIL é de 0.171. Para cada activo subjacente determina-se o valor do pip. Assim, o valor de 1 pip é de 20 dólares, pelo que o cálculo é o seguinte:

A cotação média da divisa EUR/USD é de 1,5200, sendo portanto o cálculo em euros do valor dos pontos SWAP:

0.171 x 20 USD /1,5200 (EUR/USD) = 2,25 EUR

Dessa forma, o valor da posição do investidor seria:

2236,84 EUR + 2,25 EUR = 2239,09 EUR

Dia 2

No dia seguinte, assistimos à publicação de outro dado que poderia afectar o preço, neste caso a publicação por parte dos Estados Unidos dos seus inventários do crude. Às 14,30 horas de Portugal (abertura nos Estados Unidos) publica-se um dado superior ao esperado, pelo que o preço volta a descer até aos 95 dólares e já não está disposto a arriscar mais. Decide encerrar a posição, tendo como resultado:

2000 USD x (98.04-95.00) = 6080 USD

A cotação actual entre EUR/USD é de 1,5250. Para o cálculo do rendimento obtido em euros, o ganho resultante será o seguinte:

6080 USD/1.5250 EUR/USD + 2,25 EUR= 3989,13 EUR

Como gerir o risco cambial - exemplos

Entre as hipóteses em que se utilizam os CFDs para cobrir o risco cambial derivado da actividade económica básica de uma empresa, devemos diferenciar: os que pretendem obter uma garantia total do risco cambial, para o neutralizar (abordagem passiva), e aqueles que mediante uma formação activa da exposição, procuram beneficiar-se também das expectativas sobre a evolução das taxas de câmbio (abordagem activa).

Abordagem passiva – garantia total

Uma empresa portuguesa tem um contrato com um fornecedor americano para a aquisição de componentes por um preço de 250 000 USD no prazo de um mês e meio. De acordo com o câmbio EUR\USD actual de 1,5400 isto supunha, no caso de efectuar hoje o pagamento, um desembolso de: 250 000 \ 1,5400 = 162 337,66 EUR.

A perspectiva de uma possível descida das taxas do BCE induz a um receio por parte do empresário que, na data efectiva do pagamento, o USD se tenha fortalecido face ao EUR e, portanto, esse desembolso de 250 000 USD terá um valor superior em EUR ao actual. Este é o motivo que o levará a proteger esta transacção. Para simplificar, não introduzimos neste exemplo o impacto do ajuste diário por pontos SWAP pelo facto de manter a posição aberta durante um período superior a um dia.

Funcionamento

Uma vez que no momento actual a empresa portuguesa seria beneficiada por uma desvalorização do USD e desfavorecida por uma valorização dessa mesma moeda, na prática é como estar "curto em USD". Para compensar esta situação o que faremos será pormo-nos "longos" em USD, para que perante uma hipotética valorização do USD os ganhos na sua posição em CFDs compensem o maior esforço realizado para pagar os 250 000 USD ao fornecedor americano.

Portanto, o empresário abriria uma posição curta em EUR\USD, ou seja, curta na divisa de referência (EUR) e longa na de contrapartida (USD).

Dado que o valor nominal de um lote é de 100 000 EUR e o câmbio médio é de 1,5400, com a venda de 1,6 lotes EUR\USD conseguiremos um valor nominal de 246 400 USD muito aproximado aos 250 000 USD que pretendemos cobrir.

Consequências

Vamos supor que no dia estabelecido para o pagamento o USD registou uma apreciação efectiva face ao EUR, atingindo os 1,5200.

Portanto, o pagamento obriga a um desembolso de:

250 000 \ 1,5200 = 164 473,62 EUR

Em relação aos 162 337,66 EUR, isto implica uma perda ou um desembolso extra de:

164 473,62 – 162 337,66 = 2 135,96 EUR


Por outro lado, o ganho da nossa posição curta em EUR\USD será de: 1,6 (número de contractos) x 10 (valor de 1 PIP na divisa de contrapartida, USD) x 200 (número de PIPs)= 3 200 USD

De acordo com o câmbio médio 3 200 USD = 3 200 \ 1,4200 = 2 253,52 EUR

Abordagem activa – garantia parcial

A abordagem activa significa que o empresário não deseja apenas neutralizar o efeito das variações das taxas de câmbio das divisas até à data do pagamento, mas visto que tem também as suas próprias previsões a esse respeito, quer aproveitá-las para obter assim um ganho extra. Isto é possível se realizar a operação por um valor nominal superior ao do pagamento que queremos proteger. Por exemplo, no caso anterior teria contratado 2,5 lotes.

Consequências

Em comparação com a situação na qual a empresa não aplica qualquer tipo de seguro sobre a taxa de câmbio, a exposição ao risco cambial diminui e permite-nos ainda beneficiar das variações entre a taxa de câmbio das duas divisas. Na abordagem activa tem uma grande relevância a escolha do momento oportuno para realizar a operação de cobertura do risco.


A gestão do risco

A gestão do risco no processo de investimento CFD tem de ter como objectivo a estabilização dinâmica do crescimento do valor da carteira no momento de obter os ganhos previstos. A gestão, neste caso, significa a aceitação e a aplicação na prática diária de um conjunto de regras, referentes ao volume das posições abertas, ao risco ou aos riscos aceites, em relação aos quais existe um compromisso.

A correcta gestão do risco é o factor decisório mais importante para o êxito do investimento. Devemos definir detalhadamente as normas referentes:

  • ao nível de compromisso num dado mercado e à magnitude da exposição global – ao estabelecer os limites devemos ter em consideração a capacidade de mudança do mercado, a correlação entre as taxas de juro, o volume de capital investido e a situação de mercado (quantos lotes se podem comprar/vender por um determinado valor de capital)

    - ao fecho de posições com perdas – as regras referentes ao fecho de posições com perdas devem ser estabelecidas antes de realizar a transacção (a título de exemplo, a perda máxima numa posição não deveria superar os 5% do capital). Consequentemente, as regras estabelecidas deveriam ser respeitadas.


- à utilização das ordens stop loss para proteger o capital face a perdas inesperadas.

A utilização na actividade prática de investimento das ordens stop é uma ferramenta de gestão do risco indispensável e muito popular. As ordens stop podem ser:

Ordem de perda limitada (stop loss): determina o nível máximo de perdas aceites na transacção. Após ser superado, fecha-se a posição.

Take profit: é dirigida ao encerramento da posição quando se alcança o nível de ganhos delimitado previamente.

Trailing stop: fecha a transacção se a parte relacionada com o seu ganho inverte.
Breakeven: produz o fecho da transacção se as perdas originadas por ela causam uma descida do capital abaixo do seu valor inicial.

Podemos decidir o volume do limite ao realizar a ordem baseando-nos:

na volatilidade do mercado – esta solução permite a adaptação do nível de defesa às condições de mercado, mediante o uso do indicador de câmbio adequado (ex. ATR –Average True Range ). No caso de períodos de grandes variações, o nível de stop afasta-se mais do preço actual. No caso de um período de poucas mudanças, o sistema reage a um menor movimento no mercado.

nos gráficos – o método heurístico prevê que as ordens stop loss se encontrem perto de  nível importantes, do ponto de vista da análise. Os extremos de mercado anteriores (picos e fundos), as limitações das linhas de tendência ou a perfuração das formações técnicas podem ocupar lugares importantes.

Nos indicadores técnicos – a transacção de fecho de uma posição tem lugar no momento da aceitação, por parte do indicador técnico escolhido, de um determinado valor. Um exemplo pode ser a transacção de fecho de uma posição se os preços descem abaixo da média móvel de um parâmetro estabelecido.

Volume das perdas potenciais – fecho da posição em caso de perdas de um volume determinado. O nível de perdas toleradas é aceite ao abrir uma posição concreta, sem alterações posteriores.

Capital em posse – método que faz depender o momento de fecho da posição do nível de capital em posse pelo investidor. Se, como resultado do ajuste da transacção diminui o valor da carteira do investidor até ao nível estabelecido, fechar-se-á então a posição.

Volume do depósito/margem – o nível admitido de perdas encontra-se vinculado ao nível do depósito/margem actual, exigido pela regulação do mercado e baseado, normalmente, na volatilidade do instrumento. Encerra-se a posição se o nível de perdas alcançar uma determinada parte do depósito realizado.


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